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Olá, meus 70 anos!

Na praia, fora de temporada, sozinha, me dei conta quão imensa era a saudades que sentia de mim.

Silêncio na casa, no jardim, na rua. Coisa boa escutar o silêncio do silêncio!

Dei um off na TV, censurei o celular, pedi trégua a minha mente. Apaziguei meu corpo ao ritmo da minha respiração.

A trilha sonora vinha dos sons da mata, marulhos do mar, sussurros do vento. Passarinhos aqui e acolá salpicavam notas em harmonia.

Tons iluminados pelo sol e pela lua acompanhavam o passar das horas e dos dias.

Dediquei-me aos afazeres com a leveza que os ofícios deveriam ter. Dei-me boas comidinhas, lavanda após o banho, lençóis macios, trabalhinhos com agulhas atentas. Leituras. Meditação.

Caminhei. Caminhei muito. Andei pelos espaços ao meu dispor e pelo tempo.

Passeei, vagarosamente, nas ruas das minhas lembranças. Nelas, observei que as moradas não são mais enumeradas como em uma linha do tempo. Minhas lembranças estão deixando de ser uma história. Agora, juntam-se como pedrinhas de um caleidoscópio em tom sépia, fazendo de mim uma forma que muda a cada giro.

Essas ruas, estão no mapa da minha geografia.

Em frente ao mar mergulhei em mim. Buscava ir além da semente, sentir o que em mim me desmente, chegar até o humano que me une a todos os viventes.

Descobrir, quem sabe, que a alma não é uma sombra, mas uma estrela que se ilumina de um Sol que atravessa o corpo e os bloqueadores solares!

Quis alcançar o relógio que mede o tempo além dos músculos que abraçam meus ossos. Pressinto que há um descompasso entre o relógio da minha cozinha e esse que está dentro de mim. Esse descompasso me confunde. Qual idade? Mais nova, mais velha, mais antiga. Estou por vir ou por ir?

Voei pelos ventos. Olhei as nuvens do mesmo que jeito que olhava com olhos de menina nos quintais onde cresci. Delas surgiram as mais diferentes imagens. E, apesar de não dedicar mais muita energia em busca de sonhos, pus-me a sonhar.

Sonhos miúdos: um algodão doce feito com açúcar de bondade, uma bolha de sabão assoprada com delicadeza, um girassol usando um laço cor de carinho, um suspiro assado transbordando de contentamento de ter no pouco a plenitude do tudo.

Cheiros… ah os cheiros!

Desde muito pequena eles são rotas de fugas para mim. Palheta com diversos matizes de odores: terra molhada, mato depois da chuva, casa após a faxina, comida do meu pai. Lavanda seiva de alfazema…

70 anos do homem é muito. 70 anos da humanidade é nada. Passar por 70 anos tem representado muito e ao mesmo tempo pouco para mim. Sim, observo meu corpo que registra mudanças. Mas, tenho me adaptado com os novos ângulos de suas curvas, dobras, plissados, desconfortos estranhos (sei que são males da idade).

Aprendizados que fizeram entender que a felicidade se come aos pedacinhos. Que intervalos com alegrias, apesar de durarem pouco, valem por toda a melodia. Que as expectativas que lançamos aos outros é a miragem de nós mesmos. Economizar o termo amor, reservando-o para uso exclusivo do dicionário do coração. Saber que não mudamos os outros nem o grande esboço desenhado pelo destino de cada um. Perceber que escolhas, responsabilidades e resultados têm um único endereço: o nosso; sendo proibido, com direito a multa e condenação, colocá-las na porta do vizinho. Descobrir que uma boa escuta vale mais do que mil palavras e que apego é muito mais do que descartar coisas.

Aos 70 já somos mais ou menos o que seremos para sempre. Passou a hora dos grandes projetos. É hora da grandeza de saber-se parte das transformações da vida. E tomar a decisão de seguirmos (ou não) o rio, arriscando novos mergulhos mesmo que nossas braçadas já não sejam mais tão fortes para as longas distancias.

Passear pelo passado sem dele depender para viver o agora. Conhecer a lei da imprevisibilidade do futuro, apostar nela, aprontando-se para seus súbitos sustos. E, assim, não mais sentindo-nos divididos entre interno e externo, respirar tudo em um só ar.

70 anos dá uma sensação de finitude. No entanto, nos permite saber que nada nem niguém chegou ao finito do infinito!

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Raquel Namo

Raquel Barbosa Namo é pedagoga, escritora, poetisa e dona de uma lojinha no Enjoei, visite: enjoei.com.br/namolita