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O segredo é não parar

Convenhamos, a terceira idade é a velhice. É, ve-lhi-ce. Terceira idade, quarta idade, melhor idade, “idoso não é velho”… tudo eufemismo.

Assustado? Vamos enfrentar os fatos. Sua idade cronológica venceu, sua certidão está toda puída, meu bem.

Estamos velhos, sim. Por mais que desfilemos com roupa de ginástica e tênis da moda por aí, quem chegar bem perto vai perceber que a nossa pele anda meio gasta, ainda que disfarçada com cremes ou plásticas . É, vovô, esse seu cabelo branco é um charme, mas os cochilos em horas impróprias denunciam. Você está cansado.

O envelhecimento está aí, em diferentes dimensões. Seu metabolismo anda desacelerado. Você nem consegue trabalhar com o mesmo ímpeto de antes. Pelo menos, se nunca sabia onde estavam seus óculos, agora você tem um desconto para a perda de memória.

Normalmente, por volta dos sessenta, numa sociedade bem estruturada, os pais estão livres para viver uma vida independente, pois os filhos, por sua vez, estão com famílias já formadas, navegando no barco de suas vidas.

No entanto, nossa cultura luso-brasileira faz com que os avós se sintam na obrigação de cuidar dos netos como cuidaram dos filhos. É delicioso estar com netos, sem dúvida. Mas o que quero dizer é que, muitas vezes, os idosos acabam deixando de ter uma vida de casal. Justo nessa fase em que dispõem de mais tempo para ficar com o outro, para cuidar amorosamente do parceiro, para viajar a sós.

Aperfeiçoemos a cumplicidade. Afinal, a vida já está construída. O que passou, passou. Não é porque algumas habilidades ou atitudes venham um tanto comprometidas que iremos fitar o olhar no horizonte da mesma varanda todos os dias.

. Aqueles que souberem aceitar as limitações irão aproveitar a nova fase com alegria.

Dê uma olhadinha no seu bairro. Certamente, você irá perceber que muitos estabelecimentos comerciais fecharam. Mas não as pet shops. Nem as farmácias.

Dá para perceber que ninguém quer ficar sozinho. Quase todo o mundo tem um cachorro ou gato para chamar de seu.

Aliás, é disso que precisamos: companhia, amizade. A família ajuda. Afeto e atenção podem curar. Mas isso não quer dizer que não se sobrevive sem família.

Quantas vezes os amigos nos resgataram do fundo do poço? Recorra a eles sempre. Não deixe que se afastem.

Entretanto, treinemos uma regra de ouro: “a pessoa que mais amo na vida sou eu mesmo”.

Envelhecer não é tão ruim. O problema é que, quanto mais velhos, mais perdas acumulamos. Fica difícil tocar a vida sem o parceiro ou a parceira de uma vida toda.

Um dia acordamos e nos perguntamos como encarar essa tristeza. Como frear as lágrimas que saem assim, de dentro, sem avisar. Como lidar com o silêncio insuportável que nos cerca. Como sair do torpor de um luto que vem em ondas. Às vezes, um tsunâmi. Outras, uma simples marolinha.

O segredo é não parar. Podemos nos despedir dos outros, mas nunca de nós mesmos. Recordar bons e maus momentos que fazem parte de nossa história é o que nos manterá vivos, ainda que machucados.

Aos poucos, comece a expandir os espaços do coração, da alma e da mente a fim de que outras pessoas, prazeres e ensinamentos passem a redesenhar esse novo futuro.

Caro leitor 60+, compartilhe suas histórias, pensamentos, experiências, sonhos, desejos e ideias. Mande seu texto para edna@amominhaidade.com.br e participe deste espaço.

Marilena de Lauro Montanari

Marilena Esberard de Lauro Montanari é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, onde foi professora de Comunicação e Expressão e de Literatura. Também trabalhou nos cursos de graduação da Fiam/FMU. Sócia-diretora da Inteligência Empresarial Consultoria e Participações, é consultora para produção de textos, instrutora de cursos de Gramática...

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