edicao muriel 1

Atriz no palco da vida

Escrito por Muriel Pokk

Sentada diante do espelho, vejo rugas em meu rosto. Durante anos, aos poucos, elas vieram chegando. Hoje, após 70 anos, resolveram morar, definitivamente, em minha face.

Para não pensar mais nelas, começo a pentear-me. Observo que há quase “dois dedos” de cabelos brancos aparecendo. Recrimino-me pela negligência.

Sinto saudade da época em que meus cabelos, por mais que crescessem, apareciam sempre negros.

Talvez seja o cansaço dos anos, ou quem sabe a solidão, mas a verdade é que não tenho mais vontade de tingir os cabelos brancos de 15 em 15 dias. Por isso, todas as vezes que os vejo, digo em voz alta: 

Vou deixá-los em seu tom natural.

Depois, meio sem graça, rio de mim mesma.

Já tentei fazer isso tantas vezes, mas, quando as raízes começam a crescer –  e cada vez mais aparecem –  conscientizo-me de que não sou tão corajosa para tomar tal atitude.

Muitas vezes eu me pergunto:

Por que tenho vergonha dos meus cabelos grisalhos?

Será que é por medo de ser chamada de velha?

Será que é medo do preconceito?

Será que é porque a aparência física é muito importante para a sociedade?

Não encontrando resposta adequada, chego à conclusão de que vivo no palco da vida, sou a atriz principal, tenho que representar, usar maquiagem, dizer o texto do script…

O grande público  assim exige.

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Muriel Elisa Távora Niess Pokk, 71 anos, nasceu na capital paulista, onde reside e, desde que se aposentou, dedica-se à defesa dos direitos das pessoas portadoras de deficiência. Realiza, gratuitamente,  palestras sobre a síndrome de Down em todo o território nacional.

Frequentemente é entrevistada por: jornais, revistas, sites, organizações especiais e programas de televisão, por sua luta para que a filha, Rita de Cássia, síndrome de Down, realizasse todos os seus sonhos.

 

Em fevereiro de 2000, criou a primeira sala de bate-papos para Deficientes, inédita no mundo. Por esse feito, seu nome consta na Ata da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, com um “ATO DE LOUVOR”.

Ainda em fevereiro de 2000, criou o site “Grandes Encontros” – http://www.grandesencontros.com.br – site de encontros para deficientes, fato este, na época, inédito no Brasil e no exterior. Uma grande inovação na cibernética universal.

Em 2000, Rita conheceu Ariel, também síndrome de Down, e casou-se com ele em 2003. Esse casamento entre Downs foi, na época, inédito no Brasil e, ao que se tenha conhecimento, no mundo.

Em 10 de maio de 2006, por todos seus esforços em favor das pessoas com  deficiência, foi agraciada pela Câmara Municipal de São Paulo  com o troféu: “Mãe de sucesso 2006”.

Atualmente, dá orientação gratuitamente sobre como proceder quanto à inclusão de  portadores da síndrome de Down em escolas comuns.

Paralelamente, escreve artigos, crônicas, poemas e poesias, que são publicados em  blogs, sites e jornais virtuais. Tem três livros publicados:

  1. De mãos dadas com Deus (onde conta sua trajetória para ajudar Rita)
  2. Poesias ditadas pelo coração
  3. Momentos (poesias, crônicas, orações, poesias)

Caro leitor 60+, compartilhe suas histórias, pensamentos, experiências, sonhos, desejos e ideias. Mande seu texto para edna@amominhaidade.com.br e participe deste espaço.

Edna Perrotti

Edna Perrotti é doutora em Linguística Aplicada pela PUC/SP, onde foi professora de Língua Portuguesa e de Redação. Também trabalhou durante mais de 20 anos na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), nos cursos de graduação e pós-graduação. É membro honorário da Academia Paulista de Educação e diretora da...

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