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Vivendo plenamente a terceira idade

No meu álbum de formatura da 4ª série ginasial, em meados dos anos 60, estou sentada ao lado de uma senhora bem idosa, acima do peso, alguns cabelos brancos, lisos, puxados para trás, mãos espalmadas sobre as pernas devidamente cobertas por um vestido de seda estampado que lhe chega quase aos tornozelos, deixando ver seus pés com algumas veias inchadas. As mangas são longas, por isso só dá para observar as mãos senis. Nada de esmalte. No rosto, a pele sem viço, sem maquiagem, nem mesmo um batom clarinho. Tenho, nessa época, 15 anos; ela, 60.

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Hoje, já estou longe da idade que tinha minha avó no dia da minha formatura ginasial. E, além de o espelho refletir uma imagem completamente diferente, estou completamente ativa, trabalhando das 9h às 18h, no escritório de produção e revisão de textos que mantenho há 30 anos, dando aulas de vez em quando em um curso aqui, outro ali, proferindo palestras na minha área de especialização, escrevendo, pensando em novos projetos, curtindo o privilégio de viver em uma época informatizada, não só com acesso a todo tipo de conhecimento como também às facilidades da tecnologia no escritório e fora dele.

É certo que pertenço a uma camada privilegiada da sociedade. Sou de uma pequena parcela da geração dos anos 60 que teve acesso à universidade – em vestibulares concorridíssimos, diga-se de passagem; que adiou o casamento cinco ou seis anos para se dedicar à carreira; que usufruiu o advento da pílula para planejar quando teria filhos e quantos eles seriam; que contou com a ajuda de uma auxiliar em casa para trabalhar fora; e por aí vai.

Infelizmente, no Brasil, milhares de mulheres com a minha idade vivem em condições bastante diferentes, pois não lhes foi dado o direito de estudar, de trabalhar, de ser donas de seu próprio destino, quanto mais de desfrutar os benefícios da terceira idade. Por isso este texto é escrito do meu ponto de vista, a partir do que vivo e dos grupos a que pertenço – que têm, de uma forma ou outra, o mesmo modus vivendi.

Apesar de já estar aposentada pelo INSS há algum tempo, ainda me é remota a ideia de parar de trabalhar totalmente. É certo que diminuí bastante minha carga horária: já não dou mais aulas na universidade, o que significa que não tenho um local rígido para estar presente em determinados dias da semana; que posso levar o computador em pequenas e grandes viagens e trabalhar a distância, atendendo meus clientes como se eu estivesse sempre no escritório. Agora mesmo estou voltando de uma viagem ao exterior e, graças à diferença do fuso horário, dava para trabalhar on-line tranquilamente, depois de um dia intenso de passeios, como se estivesse aqui, no período da tarde. Também o fato de não depender da aposentadoria para viver – por ainda continuar em atividade –, me permite utilizá-la para algumas regalias que não me eram possíveis antes.

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Privilégios monetários à parte, a terceira idade, se estamos com saúde – e aí também entram todos os cuidados necessários –, nos deixa mais despreocupados e nos ensina a dar valor somente ao que realmente vale a pena (sabedoria da idade?). Não ficamos tristes dois ou três dias se o neto da amiga quebrou o vaso que foi presente de uma tia querida em nossas bodas de prata… já não nos martirizamos com um erro no trabalho se ele não vai absolutamente prejudicar ninguém… relevamos se alguém nos dá uma resposta ríspida ou se uma amiga de repente não nos telefona mais…

A gente também aprende a não se exaltar, a não defender nenhuma ideia com unhas e dentes (é tão mais fácil acessar o Google pelo smartphone e resolver a dúvida sem estresse!). E sente uma vontade muito grande de querer escrever sobre os sentimentos, as emoções… de expressar, sem amarras, o que vai no fundo do nosso coração, com toda a liberdade.

Daí o objetivo desta página do site com textos produzidos por pessoas – mulheres e homens comuns – que estão na terceira idade, que já acumularam uma série de experiências, que estão vivendo plenamente o momento que foram construindo ao longo de seis, sete, oito décadas…

Queremos compartilhar experiências, sonhos, desejos, esperanças, angústias – quem não as tem? –, formas diferentes de solucionar problemas, de encarar desafios, de fazer planos e de concretizá-los.

Estamos abrindo esta página para que você nos escreva, para que nos envie seu(s) texto(s). Será um prazer imenso ter você conosco nas próximas edições.

Um beijo.

edna@amominhaidade.com.br

 

Caro leitor 60+, compartilhe suas histórias, pensamentos, experiências, sonhos, desejos e ideias. Mande seu texto para edna@amominhaidade.com.br e participe deste espaço.

Edna Perrotti

Edna Perrotti é doutora em Linguística Aplicada pela PUC/SP, onde foi professora de Língua Portuguesa e de Redação. Também trabalhou durante mais de 20 anos na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), nos cursos de graduação e pós-graduação. É membro honorário da Academia Paulista de Educação e diretora da...

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