Montmartre (1)

Sonhar, mas também saber desistir do sonho

O livro “Um Homem Comum”, de Philip Roth, trata da vida de um personagem sem nome, desde a infância até a morte. Nas pouco mais de 130 páginas, é mostrada sua infância – no período pós 2ª Guerra Mundial em Nova Iorque – e a relação com os pais e o irmão mais velho, passando por 3 casamentos e os problemas de saúde que o atingem após os 50 anos. À parte a narrativa envolvente, que trata de temas universais como dificuldades de relacionamento, angústias existenciais e o enfrentamento das próprias limitações na velhice, a obra tem uma abordagem muito pertinente sobre a aposentadoria. Numa passagem, já retirado de seu trabalho em uma agência de publicidade, o personagem encara a frustação por não atingir satisfação com a almejada aposentadoria:

“Ele passara muitos anos sonhando com o tempo ininterrupto que teria ao aposentar-se para se dedicar à pintura – tal como outros milhares e milhares de diretores de arte que se haviam sustentado trabalhando em publicidade. Mas, tendo pintado quase todos os dias desde que se mudara para a praia, havia perdido o interesse. A necessidade premente de pintar havia passado; a empolgação pela atividade com que pretendia preencher o resto dos seus dias se dissipara. Ele não tinha mais ideias. Cada quadro que terminava acabava ficando igual ao anterior. (…) De repente, ele estava perdido no nada…”

Diferentemente do personagem de “O Homem Comum”, o autor, Philip Roth, é um exemplo de vitalidade após os 60 anos. Considerado um dos maiores escritores norte-americanos vivos, escreveu 13 obras após atravessar o marco para a velhice. Hoje, tem 83 anos e segue ativo, mesmo tendo anunciado o livro “Nemêsis”, de 2012, como sua última obra. Atualmente se dedica à elaboração de sua biografia, em parceria com outro escritor.

Na próxima postagem, vamos analisar melhor esse trecho do livro. A frustração diante de um projeto tão sonhado. Fica a dica de leitura e o convite para que você participe desta discussão.

roth

Cecilia Xavier

Começo dizendo que sou uma otimista com o poder de transformação das ações de cada um a partir de seus desejos. Prefiro acreditar e fazer acontecer a me queixar passivamente do que não posso controlar. Trabalho na área da saúde desde 2003 como terapeuta ocupacional em Belo Horizonte-MG e...

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