Maria Formiga

A passagem das horas entre algumas virtudes

Não há como escolher entre envelhecer ou não. É inexorável. Simplesmente envelhecemos. A somatória dos anos não escolhe etnia, cultura, sexo, condição econômica, naturalidade, nacionalidade, estatura, cor da pele, cor do cabelo, etc. A forma como se vive, essa sim, não apenas  se escolhe, mas também determina como ficará nossa identidade.

Com certeza a sabedoria é uma virtude indispensável para a promoção de  um destino apto a  renovar sonhos, no lugar de reeditar velhos delírios.

A sabedoria combina com o exercício da gratidão e do perdão. Ser grato a Deus pela vida oferecida, por ter a oportunidade de exalar seu perfume, fazer diferença; gratidão pelos inevitáveis obstáculos que adubam novos tempos e crescimento interior; gratidão por tanto talento, por vezes, adormecido, negligenciado; gratidão pelas dores e pelos amores, pela beleza que sacode nossos sentidos e, principalmente, pela delicadeza escondida em cada gesto miudinho e tímido.

A gratidão atrai o afeto. O ressentimento, a solidão.

O perdão, outra virtude fantástica, impede que a alma fique obesa, cheia de histórias mal digeridas, maldormidas. O perdão não envenena nosso cérebro, pelo contrário, diariamente o autoriza a escolher “apenas o que pode lhe dar esperança”.

O autoperdão é pré-requisito para perdoar o outro. Quem se vê com humanidade encontra no espelho alguém de quem vale a pena cuidar, apesar das incompletudes, dos desatinos.

Quem não se perdoa tem resistência baixíssima a aceitar o que, na sua visão, é falha do outro. Não discrimina erro de equívoco e, assim, envelhece, transportando destino afora bagagem cheia de pesadas inutilidades.

Penso que três condições ajudam a passagem do tempo e promovem qualidade de vida: ser essencialista, ser delicado consigo e com o outro e ser disponível na troca do egocentrismo pelo envolvimento.

SER ESSENCIALISTA sugere que não preciso de tudo que acho que preciso.   Quando fico cheio de coisas, também fico cheio de problemas.  Dá trabalho viver no excesso. Bom é viver com o essencial, entendendo que  é apaziguante  poder dizer: sei que posso ter, mas não quero. Ou, ainda, chegar à conclusão de que quanto mais tiro coisas da minha vida mais percebo que não preciso colocá-las de volta, no mesmo lugar.

Identificar o essencial é a chave para ir na direção do que realmente faz sentido à sua vida.

SER DELICADO CONSIGO é uma postura  que parte da consciência de que pedras no caminho atravessam nosso cotidiano, nossos planos, e que nem sempre são tão relevantes assim. Às vezes, são circunstâncias imprevisíveis, mas não tão terríveis. A delicadeza consigo é uma expressão do autocuidado.  Aceitar os descompassos da vida é uma forma de não se desgastar tanto na luta pela transformação, não ser cruel diante das próprias limitações, para que haja espaço para saídas criativas no lugar do inconformismo e do desassossego.

SER DISPONÍVEL PARA SUBSTITUIR EGOCENTRISMO PELO ENVOLVIMENTO implica desejar ser agente de união entre as pessoas, exercitar o bem querer, abrindo espaço para que o outro possa, com você, ser quem ele de fato é.  Trocar o olhar egoico pelo companheirismo implica ainda abrir espaço para uma história plantada numa ética que agrada o coração de Deus, na medida em que acena para a vida como uma obra a ser constelada diariamente, considerando a viagem e não apenas o destino, e o outro como a si mesmo.

 

Maria do Céu Formiga

Maria do Céu Formiga de Oliveira é psicóloga, pós-graduada em Psicologia Social e mestre em Ciências da Religião. É psicoterapeuta de adultos, atendendo em seu consultório particular na cidade de São Caetano do Sul. Escritora, tem vários livros publicados no Brasil – Visões de um anti-herói, Trajetória do Silêncio,...