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O prazer da leitura

Um dos grandes prazeres de que podemos usufruir nos nossos momentos de lazer é a leitura. Quando lemos, nós nos transportamos para outros tempos e lugares, conhecemos outras culturas, outras formas de vivência, entramos no perfil de novos personagens, participamos das reflexões de autores nacionais e internacionais através de suas poesias, crônicas, contos, ensaios, romances.

Nada melhor do que a companhia de um bom livro numa tarde de domingo chuvosa, quando não temos vontade de sair para uma visita ou ninguém vem nos visitar. Ou  à noite, depois dos nossos afazeres do dia a dia.

Mesmo quando nos falta um livro novo e não há nada na estante que gostaríamos de reler, podemos nos presentear com uma boa leitura em sites que nos disponibilizam excelentes textos.

O http://www.releituras.com é um deles. Idealizado por Arnaldo Nogueira Jr.,  traz, na maioria, textos selecionados de livros de sua própria biblioteca, que ele disponibiliza para todos os que gostam de ler, além da biografia de cada um dos autores.

É de lá que foi tirado o texto Canção na plenitude, de Lya Luft, que transcrevemos:

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

E como estamos em plena Semana Santa, transcrevemos também uma crônica de Flávio Rangel, que ele publicou na Folha de São Paulo, em 1983, com fatos ocorridos naquela época, mas que é cada vez mais atual:

                                                     SEXTA-FEIRA SANTA 

                                                                                                  Flávio Rangel

 Dei uma espiada nos jornais para ver como vão as coisas nesta Sexta-Feira Santa.

Em Conselheiro Lafayette, Minas, um vendedor de laboratório, descendente de alemães, olhos azuis e simpático, amarrou, amordaçou e incendiou a própria esposa. Segundo o resumo publicado, ‘mal conheceu vizinha, mudou comportamento em casa’; agressões todos os dias, causando revolta até nos vizinhos; uma noite de horror: ao chegar do trabalho, despertou esposa que dormia; amarrada com cordinhas de nylon, amordaçadas com tiras de pano e banhada em álcool, riscou fósforo e caiu fora. Há maiores detalhes na página 19, cujos não li, porque a caminho aprendi que em Vancouver, Canadá, uma seita religiosa se dedica a tocar fogo em tudo que encontra pelo caminho, pois acredita que a salvação da humanidade está na rejeição da propriedade através do incêndio. A senhora Mary Brawn, presa com fósforo na mão, ficou nua no tribunal. Ela tem 63 anos.

Em Cuzco, no sudeste peruano, famílias camponesas estão vendendo ou presenteando seus filhos por falta de alimentos, e na cidade de Sicuani, flagelados pela seca destruíram uma estação ferroviária. No bairro do Limão, João Martins da Silva Neto, 20 anos, deu dois tiros em seu colega Altamiro Lopes dos Santos e o matou na hora. Já em Moscou, foi presa a cidadã Maya Klyada, uma professora de yoga de 55 anos. Ela diz que recebia mensagens de seres sábios que viviam em outras dimensões e avisaram que este planeta Terra é um planeta é um planeta doente e vai acabar, caso as pessoas não se afastem do mal e não se dediquem ao vegetarianismo e ao amor do próximo. Foi condenada pela divulgação de histórias falsas que difamam o Estado soviético.

No Parque Dorotéia, São Paulo, foi executado com três tiros o vigilante Dionísio da Silva, de 57 anos; ele é um dos cinco que foram assassinados numa semana, sendo que um deles foi enforcado com tiras de pano. Já João Ferreira do Amaral, de 44 anos, residente no bairro Acaré, em Itaquaquecetuba, ‘desancou a companheira a porretadas’. Carlos Alberto Cassiano dos Santos ‘eliminou a mulher com uma facada’, na cidade de Salvador, Bahia. Diz o jornal que João era dado ao vício da embriaguez, enquanto Carlos Alberto estava completamente bêbado. No Riacho Grande, São Bernardo, o bebê Micheli foi agredido a beliscões e mordidas pelo desocupado Elias dos Santos. Em Fortaleza, o trabalhador de carnes Marcos Antonio Gomes de Oliveira foi devidamente esfaqueado e morto por Deusimar de tal ‘tido como cabra que não leva desaforo pra casa’. Na Estação da Luz, São Paulo, uma mocinha foi assaltada por dez marginais que a agrediram e roubaram.

Há um plebiscito na Cidade do Cabo, Sul da África, mas dele os negros não participam, enquanto continuam intensivos os combates na Nicarágua. O sociólogo Michael Kott faz conferência em Edimbourg e avisa que a ‘corrupção é inerente à natureza humana e em todas as repartições públicas do mundo o roubo é uma prática confirmada’. No Engenho Novo, uma menina que trabalhava como empregada doméstica facilitou a entrada de ladrões numa casa. Já a cidadã Carmem Moreno, de São Bernardo do Campo, denunciou à polícia um vizinho que comeu gato. Preso, ele declarou que há muito tempo só come carne de gato. Houve tiros, correria e colisão em Perdizes; Jair Leite Pimentel ‘matou inimigo com dois balaços em Araçatuba’; e a União Soviética acusou Israel de planejar uma guerra contra a Síria, enquanto jatos militares se chocaram sobre os céus de Singapura.

O deputado siciliano Crazio Santagotti morreu de trombose cerebral em pleno Parlamento em Roma, o médico disse que foi por esgotamento, em virtude de inúmeras brigas que existiram em plenário. E o arcebispo Claudio Collinga, de Porto Alegre, disse que ‘a aspiração máxima da Nação sempre foi a paz e a tranqüilidade’.

Assim vão as coisas, 1950 anos depois da morte daquele que disse ‘amai-vos uns aos outros’”.

 

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A imagem que ilustra o texto é uma aquarela da artista Maria do Céu Formiga.

Edna Perrotti

Edna Perrotti é doutora em Linguística Aplicada pela PUC/SP, onde foi professora de Língua Portuguesa e de Redação. Também trabalhou durante mais de 20 anos na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), nos cursos de graduação e pós-graduação. É membro honorário da Academia Paulista de Educação e diretora da...

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