marilena resolucao

Irei a pé para a casa de repouso

Cresce entre nós o sonho de morar nos Estados Unidos. Com razão. Lá há um grande respeito pelos mais velhos e uma infraestrutura de dar inveja.

Frequentemente, deparamo-nos com idosos e pessoas com dificuldade de locomoção absolutamenrte sozinhos, de andador ou cadeira de rodas, pegando ônibus, metrô, fazendo compras.

Afinal, as calçadas são planas e há indivíduos treinados para lidar com esse tipo de dificuldade. O motorista para o ônibus, desce a escada e ajuda o passageiro cadeirante a se ajustar no espaço apropriado.

Nos parques temáticos, quem está numa cadeira de rodas tem sempre prioridade de acesso. Nas piscinas, uma espécie de cadeira-guindaste serve para mergulhar na água com segurança.

Então, você já se aposentou, tem uma renda razoável e resolve viver o sonho americano com seu parceiro ou parceira. Escolhem um lugar magnífico, rodeado de lagos, com clube cinco estrelas, no meio do nada. É só pegar o carro e, em cinco minutos, você está no centrinho do seu condomínio.

Sem trânsito, tudo muito limpo e organizado.

Talvez limpo e organizado demais. Vocês já têm idade. Não é assim tão fácil fazer amizade. E um vai depender cada vez mais do outro. Nossa cultura não educa para a independência. Somos sempre dependentes do amor do outro, da aprovação do outro, do olhar do outro.

Daí custamos a aceitar o fato de eles irem ao supermercado de pijamas e pantufas e  nunca nos conformaremos com a falta de vaidade e a obesidade mórbida que obriga as pessoas a ocupar dois assentos nos restaurantes e, mesmo assim, se empanturrar de fritas e refrigerante.

A saúde custa caro. Muito caro para quem recebe em reais. E, cá entre nós, que barriga é essa, hein? Cadê sua velha forma?

Será que podemos nos virar sozinhos como os americanos?

Vamos querer sempre que alguém cuide de nós. Seja em nossa casa seja numa Casa de Repouso.

Pretendendo ser como os americanos, digo sempre que irei a pé para o asilo. Isto porque está aumentando o número de condomínios exclusivos para idosos, inclusive os bem saudáveis. Quando perceber que vou dar trabalho, arrumo minhas malas e procuro um lugar desses. Para ter companhia o dia todo. Para comer em restaurante. Para encontrar parceiros de ginástica ou dança.

Para ser como a mãe da minha amiga, que acaba de completar 91 anos:

Eu: − Marisa, como vai sua mãe?

Ela:− Ótima. Vai fazer a apresentação de teatro nesse fim de semana.

Eu: − ???

Ela: − É um grupo para maiores de 80!

Eu: − Ah!

Marilena de Lauro Montanari

Marilena Esberard de Lauro Montanari é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, onde foi professora de Comunicação e Expressão e de Literatura. Também trabalhou nos cursos de graduação da Fiam/FMU. Sócia-diretora da Inteligência Empresarial Consultoria e Participações, é consultora para produção de textos, instrutora de cursos de Gramática...

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