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Fascinante viajem pelo universo da arte e da arte de viver

Se existe alguma coisa interessante que tenho aprendido sobre a envelhescência, está toda muito bem condensada no último livro que li de John Updike. Chama-se Busca minha Face, edição da Biblioteca Azul.

Trata-se de uma ficção baseada em personagens reais, mais precisamente, a artística norte-americana Lee krasler que, junto com seu marido, o mundialmente consagrado Pollock, frequentou a nata cultural, artística e social da efervescente New York City dos anos 50, 60 e 70.

Além do rico panorama sobre arte moderna, a personagem trava, durante a entrevista que concede a uma jovem repórter, corajosa batalha com sua história de vida, sem papas na língua, verdades piegas ou conclusões óbvias. Ao contrário, com rara lucidez, apuro histórico e brilho intelectual.

Do alto dos seus 82 anos, a personagem Hope Chafetz, esbanja sensibilidade e honestidade ao lidar com ela mesma e com os fantasmas dos seus três ex-maridos, que, supostamente, sombrearam o talento dela com como pintora, mãe e mulher.

O contraste entre a velha senhora (entrevistada) e a jovem jornalista (entrevistadora) também conta com passagens muito tocantes; e ainda, o relato que Hope faz sobre a relação dela com a filha homossexual merece destaque entre os pontos altos do romance.

Gostaria de registrar ainda, a impressão mais desconcertante que o livro me deixou: perceber que, nos dias de hoje, a história de vida de uma mulher de 82 anos em nada se identifica com os clichês das “velhas-velhas”, se é que posso dizer assim.

Ou seja, longe de receitas de bolo e pontos de crochê e pressões sociais desgastadas e repetitivas; longe de casamentos monótonos e vidas dedicadas a criação de filhos, netos e galinhas; a senhora Hope revela uma história de vida agitada, colorida, rica, inquietante e surpreendentemente moderna. Biografia para dar inveja em muita gente “jovem”. É para ler já!

“Hope fica aliviada. Esta intrusa vai embora logo, e se não logo, pelo menos há um fim definido para a visita. Por que Hope não pode ela própria fixar o limite, fazendo valer as prerrogativas da sua idade avançada e do prestígio superior? Seu desejo de agradar, de ser amada, a tem atormentado a vida inteira. Mesmo agora, quem foi que pediu que ela desse almoço para essa moça?” 

“(…) por mais que se conquiste, nunca será o bastante. O sexo azeda, a riqueza derrete, a fama é por quinze minutos.”

“Feliz. Deixe-me pensar. Nós éramos ocupados, o que vem a dar mais ou menos no mesmo.”

Trechos do livro “Busca Minha Face” de John Updike

 

 

Renata Namo

Renata Namo - REDATORA E DIRETORA DE CRIAÇÃO/ Comecei muito cedo no mercado de trabalho. Aos 16 já vendia roupa no shopping e era bailarina profissional. Aos 18 comecei a trabalhar no estúdio de um fotógrafo de moda muito famoso, o Bob Wolfenson e com os contatos que fiz por...

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