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Equívocos

O texto de Marilena Montanari, Vou a pé para a casa de repouso, publicado no dia 8 de fevereiro, mexeu com sentimentos e emoções e suscitou um bom debate no Facebook. Para responder a algumas questões levantadas, hoje ela  escreve um novo texto.

Lendo os comentários sobre o texto anterior – Irei a pé para a casa de repouso –, senti-me na obrigação de esclarecer alguns equívocos.

O primeiro e o mais sério deles é o fato de algumas pessoas acharem que estou apregoando a ideia de que devemos internar nossos familiares idosos em instituições especializadas, não dando a eles a opção de escolha.

Ledo engano! Se lerem mais atentamente, o texto é puramente pessoal. Eu quero ter o privilégio da escolha de ir a pé para uma casa de repouso, desonerando meus filhos e noras. Com sorte, participarei de uma república com minhas queridas amigas velhinhas. Uma ajudando a outra sob a supervisão de algum profissional de saúde. Quem sabe?

Que fique bem claro: só irá para um lugar desses quem quiser. Nada de levar à força o indivíduo que se recusar terminantemente a sair de casa, tendo de largar seu gato, cachorro ou a samambaia de estimação.

Quase todos têm pelo menos um caso desses em casa. No entanto, deve haver respeito por essas criaturas amadas antes de tudo. Se optarem por ficar sentados na varanda o dia inteiro sem fazer absolutamente nada, deixando que os outros façam tudo por eles, qual é o problema? Chega uma hora em que a gente cansa e o corpo pede solidão e sossego.

Outro equívoco consiste em dizer que numa instituição para idosos não existe amor.

Cá entre nós, vale mais o amor atávico do que o profissional que pode fazer o melhor trabalho do mundo com respeito e carinho, mas amor de verdade cabe à família compartilhar.

As instituições não impedem as visitas. Ao contrário, elas são estimuladas. E fundamentais. Ora, amor se desenvolve na família e cabe a cada um visitar e confortar seu idoso, esteja ele na sua casa ou num desses lugares.

(Pausa para refletir: as visitas aos carentes da família são feitas regularmente? Estamos dando conforto e expressando-lhes amor?)

O amor familiar tende a se expandir no grupo de convivência. A pessoa se sentirá viva, fará amizades, será capaz de sorrir e de fazer os outros sorrir.

Sei que existem lugares horríveis que maltratam as pessoas que são ali deixadas pelos familiares. Cabe a cada um fiscalizar.

Quanto ao custo, realmente existem hotéis cinco estrelas que tratam como celebridade o idoso rico. Quem pode, pode.

A maioria de nós vai se contentar com o que sua renda permitir. Não é tão difícil. Basta ter boa vontade.

Hoje há bons estabelecimentos que oferecem atendimento de qualidade a idosos com baixo custo ou custo zero, dependendo da cidade.

Há também os centros de convivência e os centro-dia que disponibilizam uma espécie de escola para idosos, onde, durante o dia, eles recebem atenção, refeições, praticam alguns exercícios físicos e têm outras atividades. À noite, voltam para suas casas.

Claro que o desempenho vai depender da condição física de cada um. E, ao contrário do que pensa, você não precisa esperar os 90 anos para ir ou levar alguém a um lugar desses.

Enquanto houver alguma independência, vá a pé. Alivie a carga de seus filhos. Procure companhia além do gato ou do cachorro. Toque outras pessoas. Abrace. Cante. Dance. Grite. Escreva.

O tempo do amor é infinito. Ele pode ser compartilhado tanto no lar como fora dele.

Talvez o distanciamento até lhe dê uma folga e você vai amar seu velhinho ainda mais se tiver mais tempo para amar você mesmo.

Caro leitor 60+, compartilhe suas histórias, pensamentos, experiências, sonhos, desejos e ideias. Mande seu texto para edna@amominhaidade.com.br e participe deste espaço.

Edna Perrotti

Edna Perrotti é doutora em Linguística Aplicada pela PUC/SP, onde foi professora de Língua Portuguesa e de Redação. Também trabalhou durante mais de 20 anos na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), nos cursos de graduação e pós-graduação. É membro honorário da Academia Paulista de Educação e diretora da...

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