Maria

Que idade você teria?

Colabora conosco esta semana a conceituada escritora Maria Balé, em foto do memorável Pedro Montanari.

Qual a idade que você teria se você não soubesse a idade que você tem?

Parece brincadeira? Não é. É pergunta de gente séria: Confúcio (551 a.C- 479 a.C), filósofo e teórico político, a figura histórica mais conhecida na China cuja influência se expandiu por toda a Ásia.

Não me ocorre que o filósofo chinês estivesse preocupado com o viés da aparência ou a cosmética de cada fase da vida. Isso é cultura ocidental performática para a qual a idade é encarada como perda. Envelhecer, para os orientais, é motivo de reverência. Para os ocidentais, falta de compostura, deselegância. Que coisa feia!

Confúcio, pensador de tamanha envergadura, ao tomar a idade como objeto de suas reflexões, filosofava sobre a questão da finitude e, no caso dele, seu repertório de sabedoria e a extensão de seu legado.

É curioso, mas quando penso no mestre, a figura que vem à minha mente é a do ancião, o sábio, rosto magro e barbicha rala. Custa-me pensar nele como um menino que um dia foi, ou um adolescente e suas volatilidades.

Teria Confúcio sido tão volúvel como eu – ou qualquer outro ser ordinário -, em algum momento de sua trajetória? Aos dez anos, eu queria ter quinze para usar batom rosa-choque. Quem tinha vinte e usava laquê no cabelo já era uma velha. Aos quinze, queria ter dezoito para assistir aos filmes proibidos para menores. E fazer “coisas de gente grande”. Aos dezoito, agia como garotinha ou adulta, segundo o que me convinha. Aos vinte, sonhava ter trinta para não mais me submeter a entrevistas em processos seletivos. Aos trinta, acordei assustada, entrei em crise severa, quis fazer o trajeto de volta e ter vinte e cinco.

E alguém já ouviu falar em crise que não passa?

O determinismo da idade, no curso da civilização, se altera a cada tanto. Houve era em que se morria por velhice aos trinta. Hoje se é jovem aos cinquenta, sessenta, noventa. E a ciência assegura que, em breve, a expectativa de vida chegará aos cento e vinte anos. Surpreendentemente, já é grande o número de pessoas no mundo que já comemoraram o seu centenário.

Biologicamente, começamos a envelhecer a partir da fecundação. Ficamos mais velhos a cada uma das divisões mitóticas. O embrião nada mais é do que um ovo idoso. Moralmente, nos acometem intermitências. Ora se sente velho, ora se sente na mais tenra infância ou nos eflúvios da adolescência. A ciência garante que a idade é tão plural quanto movediça. Cada pessoa tem a sua idade oficial, a dos documentos. A cronológica, contada em anos.  A físico-ósseo-muscular. A endócrina. A cutânea. A moral-psicológica-emocional. E, entre tantas, a idade filosófica, ou seja, aquela que acreditamos ter e à qual subordinamos nossa postura e nossa rotina. Não raro, sofro de dissonância entre os limites da matéria e a incontinência do espírito.

Em síntese, a idade é um signo sem regência. Há dias em que sou criança. Em outros, parece que já morri. Em instantes, danço a valsa de debutante. Em outros, sou tão ancestral quanto as múmias andinas.

Voltando a Confúcio. Qual a idade que você teria se não soubesse a idade que você tem? Vem daí que eu pergunto: com qual idade se depararia alguém que dormiu, por anos, e um dia retorna de um coma? E qual seria a idade de um corpo que abriga uma alma em festa?

 

Maria Balé é pós-graduada em Comunicação Corporativa pela PUC-SP. Produtora de textos, cronista, contista e fotógrafa. Tem curso de Extensão Universitária na disciplina Diálogos entre Filosofia, Cinema e Humanidades pela PUC-SP e de Roteiro de Curta Metragem pelo Espaço Unibanco de Cinema, curadoria do roteirista Di Moretti. Integra o elenco das antologias Damas de Ouro & Valetes Espada, 1 e 2, Editora MGuarnieri, Hiperconexões – Realidade Expandida, Editora Patuá. Venceu, por 4 vezes, o primeiro prêmio Acesc de Literatura – São Paulo, categorias crônica e conto.

Caro leitor 60+, compartilhe suas histórias, pensamentos, experiências, sonhos, desejos e ideias. Mande seu texto para edna@amominhaidade.com.br e participe deste espaço.

Edna Perrotti

Edna Perrotti é doutora em Linguística Aplicada pela PUC/SP, onde foi professora de Língua Portuguesa e de Redação. Também trabalhou durante mais de 20 anos na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), nos cursos de graduação e pós-graduação. É membro honorário da Academia Paulista de Educação e diretora da...

Outras publicações do autor