RECOMEÇO

RECOMEÇO

Hoje faz poucos dias do meu afastamento definitivo do trabalho, exercido há 35 anos, uma decisão que se arrastou por alguns anos.

Afastamento do dever de cumprir tarefas dentro de um horário determinado pela máquina; muitas vezes inquieta no trânsito, também sempre apressado, eu já entrava no local do trabalho agarrada mentalmente ao salmo 23.

Ria de mim mesma, como se ri de uma criança travessa. Dava bom dia aos porteiros e com um sorriso franco estavam pagos os minutos de atraso, sempre compensados -, já nada mais devia.

Depois de várias vezes encerrar esse ciclo, insistindo numa outra “voltinha”, minha mente e corpo foram subitamente lançados numa correnteza. Mas já não mais me valia o esforço para vencê-la – me mantinha no mesmo lugar, quase me afogando, exausta.

Nesse último dia de trabalho, desde o nascer do sol, o contrário do que imaginava, fui invadida pela tranquilidade – passos lentos no longo corredor, gestos delicados, olhar vivo e orgulhosa de mim mesma pela coragem e conquista. Conquista – porque resgatei, e nesse curto período, parte do que pode haver de melhor em mim a ser trabalhado.

Prevendo para esse primeiro momento um estado de euforia, não; saindo de lá, acenei para o prédio “tombado” e triste, em paz. Sabia exatamente o que não mais queria.

Sentei-me num bar, mas ainda não seria lá. Fui para minha casa.

Ao entrar, senti um silêncio bom na alma, busquei minha varanda. Ainda havia beija-flores e as plantas me sorriram. Falei por telefone com minhas filhas, aconcheguei as cachorras.

Finalmente, um recomeço, finalmente sobrou-me eu, sem auto-exigências, consciente desse novo caminho e sem qualquer pressa de projeções – ainda.

Percebo-me mais.

E, por favor, não esperem muito de mim agora; meu ritmo seguirá o ritmo da minha música.

O rendimento financeiro, sim, cai; simplifica-se ainda mais a vida. Tropeços, não os imagino longe – existirão. Dúvidas, insegurança também; mas certamente estou eu aqui, onde devo estar e de onde partirei para um recomeço e novas construções.

Pois ontem um Anjo posou junto a mim e puxou-me a orelha. Depois me embalou com um sopro leve de vida. Adormeci, feliz.

Hoje ele se foi – por um tempo; voltará em breve.

De agora em diante, desejo preparar sossegadamente, e com fresca determinação, as lições que ele me recomendou.

Espero obter boas notas.